Driver

Minha cabeça trovoa
Meus olhos chovem
No teto branco do quarto
Relampeja memórias
Meu coração é máquina
Aqueles de escrever
Só funciona batendo
Inquieto saio por aí
Como um fantasma
Tenho andando
Por nossos lugares
Andando pelos cantos
Me arrastando
Lembrando do encanto
Dos sorrisos, risos e prantos
Das histórias
Aqueles que você adora
Você foi embora 
Me deixando sem abrigo
Virei o que sempre quis
Mendigo atenção e memórias 
Peço esmolas nos semáforos
Ninguém me nota
Às vezes dirijo
Pela madrugada 
Fugindo, buscando
Pessoas, coisas, substâncias
Observo tudo, divago
A luz azul noturna
O blues no rádio
O sad boy no volante
Comungo com o urbano
Na padoca aberta 24h
Peço uma média
Não me acostumei ao café
Não me acostumo com nada
Apenas com o volante
Entra um, sai outro
Uma história aqui, outro ali
Todas sem rosto
Uns trocados no bolso
Uns nóias na esquina
Mil nóias na cabeça
Conduzo sem pressa
Do centro velho
Ao bairro distante
Sensação de realização
Engrenagem que roda
Uma simples tarefa
Apenas mais uma
Noite adentro, ao relento
Talvez eu me acostume
Com o café amargo
Sem açúcar, por favor!
- Romlav.
Driver

Quando os poetas sonham

Encontrei Carlos no bar
Conversamos de um tudo
Sobre anarquismo, pedras no caminho
Coisas de meninos, assobio e passarinhos
Falamos sobre nossos mitos
Contamos coisas do coração
Ele disse amar uma pessoa
Uma fulana, aí
Se Carlos ama fulana
Eu sou encantado por sicrana
Fulana mal conhece Carlos
Ela sequer nota o poeta
Enquanto sicrana me conhece
Mas não me nota
Afinal, sequer sou poeta
O poeta desconfia desse amor
Ele acredita ser carnal
Eu tenho certeza do meu
É daqueles que doem até o osso
Carlos chora por fulana
Como um menino chora
Eu somente não durmo
Sicrana me tira o sono
Escravo da lua, vago em sonhos
Carlos segue fulana 
Observa ela em bares, bailes
Sempre bem acompanhada, diz ele
Sicrana eu não sigo, os tempos mudaram
Ela quem me segue com olhos de rapina
Sicrana me conhece, mas não me nota
Temos caminhos diferentes
Sei que sicrana é boêmia
Adoro álcool e o cheiro da noite
Ela não baila, tem um ar gótico
Pele clara, maquiagem escura
Fulana fala sobre marxismo e rímel
Cai o queixo do poeta apaixonado
Sicrana fala sobre quadrinhos e Beatles
Aí, sou eu quem fica encantado
Fulana é rica, tem latifúndios e iate
Faz caridade, sustenta mais de mil pobres
Menos o pobre do Carlos, é claro
Sicrana é pobre como eu
Somos fruto da classe trabalhadora
Será que ela sabe disso?
Sicrana é rica de sorrisos e lábios
Eu quem sustento ela 
Sustento paixão platônica 
Sicrana me conhece, mas não me nota
Primeiro encontrei sicrana no colégio
Nos corredores ela era a mais misteriosa
Depois adultos, a encontrei no coletivo
Seu olhar era mais dolorido
Do que o valor da tarifa
Ou o percurso até o destino
Encontrei sicrana na faculdade
Ela era a mais distante
Rigor teórico, mente afiada
Eu queria fazer um tratado sociológico
Sobre sicrana, acabei fazendo rima
Fulana rouba a sanidade de Carlos
Certa vez, sicrana me roubou um livro
Poderia ter sido um beijo
Teria sido melhor
Tanto pelo beijo, quanto pelo livro
O livro nunca mais vi
E o beijo nunca terei mesmo
Carlos pergunta sobre fulana
Interroga boiadeiros e pescadores
Questiona operários e doutores
Ninguém viu fulana
Ninguém conhece fulana
O poeta compreende
Fulana é mito, combustível de seus poemas
Influenciado por outros poetas, cúmplices
Fulana é imagem pequeno burguesa 
Donzela indefesa, imaginada por homens
Branca, intacta, pura de sorriso hediondo
Mas demoníaca por debaixo da saia
Sicrana não, ela é real, de carne e osso
Ela é a raiz da humanidade
Radical solução, diria alguns
Se eu perguntar por ela todos sabem
Sicrana é trabalhadora, estudiosa
É aquilo que ela quer ser
Anda pelo bairro
Tirando o sono e suspiro dos meninos
Fulana e sicrana são iguais nisso
São inspiração para canções e paixões
Eu disse que fulana sequer nota o poeta?
Sicrana me conhece, mas não me nota
Afinal, sequer sou poeta
- Romlav.
Quando os poetas sonham

Der sandmann

Ultimamente tenho sonhado
Costume que achava esgotado
Dormia e nada de sonhar
No outro dia nada recordava
Mas os sonhos retornaram
Ando sonhando dormindo
Principalmente acordado
Simplesmente tenho sonhado
Sonho com cousas do presente
Fatos do dia a dia são recorrentes
Rotina, notícias, política
Prazos, trabalhos, marasmo
Corpos, querelas e quedas
Às vezes sonho com o passado
Com aquele tato, contato, hálito
Histórias, pedidos, risos e sorrisos
Morte, luto, choro e abismo
Sonho com o tempo perdido
Sonho com o tempo vindo
Sonho porque não ando dormindo
Durmo porque não tenho sonhado
E nesse limbo eles vão vindo
Simplesmente tenho sonhado
Principalmente acordado
- Romlav.
Der sandmann

Zinnmann

Eu conheci um homem de lata
Um homem sem coração 
Uma máquina sem motor
Um autômato pingando óleo no chão
Um homem morto com pulsação 
A máquina queria ser homem
O homem é máquina
Na era da reprodutibilidade técnica
É assim que vivo sem ela
Sem motor, com pulsação
Jogando no canto da garagem
Pingando óleo no chão
Sujando as mãos
Acumulando poeira
Fora do cofre
Pulsando sem coração
Nessa fetichização
A mercadoria vira poesia
Melancolia nessa garagem fria
Querendo um órgão vital
Esqueço que motores e corações
Só são úteis se forem usados
Amaciados, partidos ou quebrados
Eu conhecia uma menina de lata
Ela não sabe a falta
Que seu abraço 
Revestido de aço me faz
- Romlav.
Zinnmann

Howl

Na madrugada fria
De algum lugar
Chega um som
O uivo de um cão
Não pode ser maldição
Já se foi a hora neutra
É apenas um vira-lata
Relatando sua solidão
Melancólica sinfonia
Uiva uma, duas, três vezes
Nenhuma resposta
Nem mesmo da lua
Talvez do vento?
Melodia aguda
Na densa escura penumbra
Solidão aparente
O choro corta meu coração
Esse estribilho mexe comigo
Causa uma síncope
Em meu pensamento
Arritmia cardíaca
Olhos rasos de lágrimas
Quero responder ao chamado
Eu homem, ele cão, dois animais
Uivando em plena comunhão
- Romlav.
Howl