Memória tátil

Os japoneses acreditam existir deuses e almas nas coisas e objetos: vasos, estátuas, prédios, Sol, Lua, vento, rios, mares, montanhas e árvores, etc. Desta forma existe uma oitocentas miríades de deuses e almas conectados em uma rede invisível de essencialização.                                                                                  

Segundo o xintoismo, a essencialização das coisas e objetos acontecem de algumas formas. Os de ordem natural - rios, árvores, céus e campos, etc -, essencializam-se simplesmente por existirem, não sendo necessário nenhuma intervenção externa para tal processo. 

Porém, as coisas e objetos, transformados através do trabalho humano, precisam se essencializar por meio das palavras (o kotodama), pensamentos bons ou ruins; energias positivas ou negativas; orações e maldições realizadas no momento de confecção de tais objetos têm a capacidade de essencializá-las ou endeusá-las.

Esse aspecto do xintoismo japonês, lembrou-me de uma estranha mania que tenho, não é única, muito menos excepcional. É uma dessas manias que adquirimos com o tempo, conforme vão se passando os anos. Nem sei se pode ser considerada uma mania, alguns diriam que é compulsão

Ao longo dos anos adquiri uma modesta coleção de pequenos objetos, pequenas coisas insignificantes para alguns, mas que para mim guardam uma beleza inútil: uma pedra encontrada na rua, durante uma caminhada noturna; uma paleta que ganhei enquanto trabalhava de garçom em um bar; um broche presenteado pelo reitor na época das ocupações da Universidade; a chave quebrado do meu fusca, quebrada em uma noite de muitas risadas; outra pedra que alguém me deu enquanto tomávamos sol na areia da praia; alguns botões de roupas que eu adorava, mas que agora não sei mais onde estão; a cabeça de uma pequena estátua de Buda que meu gato quebrou; algumas peças de xadrez recordam-me de um tempo que se foi; um anel de madeira, uma simples aliança, um elo entre o começo e o fim de algo. 

Essas são algumas das muitas coisas guardadas. Minha coleção já teve, apesar de serem pequenos objetos, uma certa magnitude. Cheguei a ter uma gaveta inteiramente abarrotada de belas insignificâncias. Me desfiz de muita coisa, então estou livre do diagnóstico de acumular compulsivo

Diferente do xintoismo japonês, a qual o kotodama é necessário para essencializar as coisas, essa minha pequena coleção de objetos ganha alma através da memória. Cada um desses objetos é uma memória tátil, que posso sentir na ponta dos dedos quando os seguro. No seu peso e sensação.

Mas agora pasmem, a mania que queria lhes contar não se trata desta minha estranha coleção. Tenho a mania de, antes de sair de casa, pegar qualquer uma dessas insignificâncias e colocar no bolso. Como se fossem um patuá, um amuleto, um chamariz para atrair outras pequenas insignificâncias.

As carrego no fundo do bolso, sinto-me protegido, corpo fechado, como se tivesse tomado um banho de mar. Apesar de ter adquirido um certo ceticismo em diversos aspectos da minha, sinto que tal mania me traz uma proteção, pode não ser espiritual, mas quando estou ansioso e longe do meu canto, ponho a mão no bolso e percebo a beleza na superfície desses pequenas objetos. Acabam virando lembranças palpáveis, pequenas pílulas de sobriedade em momentos conturbados.

 Essa minha coleção de pequenos objetos constroem o que eu poderia chamar de grande alicerce da minha memória. Uma oitocentas miríades de memória conectadas em uma grande rede de essencialização de memórias táteis.

– Romlav.

Memória tátil

Greve de Sonhos

Acredito que fiquei uns três anos sem sonhar, se sonhava algum sonho não o lembrava. Acordava de manhã e de nada me recordava. Porém, um dia eles retornaram, aos poucos comecei a me lembrar do que havia sonhado nas noites anteriores, passei a acordar no meio da noite e anotá-los para no outro dia escrever sobre eles. Ansioso por entender esse retorno repentino dos meus sonhos comecei a ler Freud. Sua vasta obra sobre a interpretação dos sonhos foi de grande ajuda, passei a ter ciência das minhas projeções e fui capaz de comungar com os recalques do meu subconsciente. 

Mas algo ainda me incomodava, apesar de sonhar com as coisas mais ordinárias da vida: política, futebol, artes, infância, esquecimento, banalidade e coisas do cotidiano. Eu sentia falta de um sonho específico, de um rosto específico, de um cheiro específico, de um abraço específico. Aquela sensação de presença que, às vezes, somente os sonhos podem proporcionar, tamanha a capacidade da mente humana. O último sonho desse tipo foi há exato seis anos. 

Então, uma certa noite resolvi fazer greve de sonho, recusei-me a sonhar os sonhos que não fosse aquele sonho específico. Era uma greve geral, desliguei as máquinas de rodar sonhos em minha mente e só as ligaria novamente quando aquele sonho se apresentasse no salão principal. Não existia retorno a partir daquele ponto, estava feito. Naquela noite os sonhos faziam fila, exigiam ser sonhados. Um congestionamento de sonhos se fez na cabeceira da minha cama. Eles eram tantos que mesmo se eu parasse a greve, não poderia sonhá-los todos de uma única vez, levaria anos e talvez toda uma vida para sonhar aquele mundaréu de sonhos. Muitos sonhos já repetidos tentavam burlar a greve:

— Sonhe-me, somos conhecidos, lembra da sensação de voar? Posso trazê-la de volta como nas noites voadoras.

Outros sonhos novos, jamais sonhados, sussurravam em meus ouvidos: 

— Sonhe-me, sou novo e lhe trarei sensações novas, jamais sentidas.

Na fila havia sonhos repassando suas falas para a atuação, pareciam ansiosos. Outros protestavam, dizendo que iriam se atrasar e tinham compromissos. Outros apenas aguardavam sem entender o que se passava. Alguns outros afirmavam que aquela situação era culpa da inflação, sonhar estava ficando cada vez mais caro. Outros retrucavam que aquilo na verdade era culpa do capital internacional, que inundava o mercado com sonhos estrangeiros. Alguns falavam que deveríamos privatizar os sonhos, certamente isso iria diminuir as filas. Tinha um grupo de sonhos fazendo escambo, trocavam adereços, personagens, sonhos de amores por sonhos de tristeza, aquilo era uma tremenda confusão e explicava muita coisa.

Essa greve teve seus efeitos colaterais para além da acumulação de sonhos, acarretando noites mal dormidas, sonhos diurnos e cochiladas vespertinas. Porém, em minha mente as máquinas ainda seguem paradas, e ficarão assim o tempo que for necessário para que eu sonhe aquele sonho específico:

O exato momento em que eu te abraço forte.

- Romlav

Greve de Sonhos

Embreagem

Sempre vivi assim...
Reencarnações em uma única vida
Infinitos ciclos sem fim, por exemplo
Em outra vida frequentei a escola
Enforquei muito, reprovei não por nota
Aulas degolei, Robespierre reis
Não era o mais descolado da turma
Muito menos o mais enturmado
Fui um aluno medíocre, só o básico
No mais primitivo emprego da palavra
Porém, eu tinha minhas companhias
Falar em emprego, em outra vida
Fui do sindicato, possuía até carteirinha
Eu tinha 12 ou 13 anos, ia com meu pai
Observei reuniões, discussões e formações
Sobre salários, arrojos e um tal pelego
Em outra vida a maioridade civil chegou
Me alistei, jurei bandeira, cabelo raspei
Não cheguei a servir, logo não capinei
Essa vida foi breve e rápida, ufa me livrei
Em outra vida entrei para a Universidade
Esta durou mais, pelo menos uns anos
Novamente, persistia o problema das notas
Logo tratei de correr atrás do atraso
Muitos livros fichei, artigos decorei
Outros tantos textos decifrei
Seminários apresentei, encabulei
Paralela a esta vida universitária
Usava camisa sem gola, roupa sem goma
Meu fusca decola, óculos escuro na cara
Uma garota me casava, moradores de uma kit
Pequena sala, banheiro e cozinha humilde
Alguns gatos no quintal brincavam
Jabutis no concreto devagar caminhavam
O sol quarando o tecido branco no varal
Essa vida teve um fim, desquitamos afinal
Em outra vida virei mestre, na mesma vida que fui estagiário
Já fui cientista de tarde e motorista nas madrugadas
Passageiro na hora do Rush e de manhã já me serviram um brunch
Já tive ressacas infinitas de pensamentos e me curei com whisky escocês
Como eu disse, infinitos ciclos sem fim
E agora? Agora eu era...

- Romlav
Embreagem

15 de outubro

Existiu um tempo em que as flores nasciam na rua, furavam o asfalto, o nojo e o ódio. Existiu um tempo em que elas também nasciam na sala de aula, nas cabeças e olhos das pessoas. Existiu um tempo em que as aulas eram presenciais, onde o pó de giz era uma camada natural sob as nossas peles. Existiu um tempo onde os sonhos eram plantados em Maio e colhidos quando estivessem prontos, cada sonho era um mundo diferente, em cada mundo existia milhares de outros mundos, todos diferentes entre si, esse era o nosso mundo. Existiu um tempo que dentro da sala de aula os mundos eram colocados de cabeça pra baixo, o sul era o norte e o norte era o sul. Existiu um tempo onde o longe era perto e o perto era junto, onde chorar era sinal de alegria e a tristeza era sinal de saudade. Existiu um tempo onde a dúvida era sinônimo da certeza de que precisamos aprender mais e a certeza era sinônimo de que não sabíamos o suficiente. Existiu um tempo onde uma mão levantada não era somente uma forma de fazer perguntas, mas de se posicionar com punhos cerrados. Existiu um tempo onde o tempo era escasso e tínhamos apenas um sábado para ensinar e aprender tudo o podíamos, nas aulas de história o tempo corria de trás para frente; nas de matemática o tempo era quando; nas de português era verbo; nas de geografia relevo (revelo?); nas de física mistério.

Esse tempo não existe mais? Em alguns lugares ainda existe esse tempo e essas coisas, graças aos professores, educadores, Cursinhos Populares e Escolas. Mas, certamente o Tempo atual do sistema corrente está tentando acabar com esses espaços. Então, lembremos: O Tempo atual está “embarazado” de vários outros novos Tempos, que valem mais a pena, para fazê-los ser, basta seguirmos as premissas de Galeano: “Há que ajudá-los a nascer”.

– Romlav

15 de outubro

O grito

De um planeta do fundo de uma galáxia
De um continente do canto de um rebento
De um país da periferia do sistema
De um estado dentre tantos
De um município dormitório
De um bairro cidade
De uma rua com nome de escritor
De uma casa de portões azuis
Do meu quarto, aquele do canto
Ouço do fundo do meu corpo
Um grito marginalizado de desespero
Ouço! Não escuto e nem vejo
Apenas ouço com a ajuda da madruga
No silêncio do quarto escuro
Expelido dos pulmões o ar
Ressoa o grito através das cordas vocais
Passa por meus músculos, espalha-se no ar
Nas paredes do quarto o grito reverbera
Como se estivesse preso em uma caixa
Caixa torácica, caixa craniana
Sai pela janela, que é uma dentre milhões
O grito que ninguém sabe de quem é
Se soubessem o que saberiam?
Se dispensar pela via láctea
Aí de longe podes ouvir?

- Romlav
O grito

Fugaces labuntur anni

Um tema tem sido recorrente em meus sonhos, o esquecimento.

Dias desses sonhei que encontrava um conhecido nos corredores da faculdade, parei e estendi-lhe a mão, o rosto amigo passou direto, não me reconheceu.

Outra noite, sonhei que estava em uma festa repleta de pessoas, não conhecia nenhuma delas, eram completos estranhos para mim. Alguns explicavam que todos ali eram meus amigos de longa data, eu insistia que não os conhecia e que aquele era o nosso primeiro contato. Acabei cedendo a pressão,  fizeram de mim o que eu não era. Aceitei aquela roupa de retalhos feitos de memórias as quais eu desconhecia. Conheciam-me por quem eu não era, não desmenti, e perdi-me naquelas narrativas precisas, mas que não cabiam a mim. A coisa foi tomando proporções catastróficas, eu no meio da sala rodeado de estranhos contando datas e ocasiões a fim de me lembrarem algo que não conseguia.  Apontavam o dedo e riam do meu desconforto. Fiquei exausto. Sai correndo da festa, chovia muito.

Na última noite sonhei que eu estava sozinho em casa, no começo do sonho eu era um jovem sentado em uma poltrona, não percebi o tempo passar. Levantei, ao reparar o meu reflexo no espelho não reconheci o meu próprio rosto, aqueles olhos bovinos não eram meus. Minha mente sabia quem eu era, mas não reconhecia-me naquele corpo. Algo mudará! Envelheci certamente. Tornei-me a sentar, observei meus braços enrugados, minha voz rouca, reflexos mais lentos. Naquela poltrona eu sentia os efeitos do tempo nesta cela de ossos e carne. Compreendi a importância do tempo e degustava cada segundo que passava, mas naquela altura isso não fazia mais sentido e nem importava mais. Afinal, as pessoas não me reconheciam e eu não as reconhecia; eu mesmo já não me reconhecia.

Talvez tudo isso não tenha nada a ver com o esquecimento, talvez seja apenas a velha e boa solidão.

– Romlav.

Fugaces labuntur anni

“Remember, remember.”

A Memória é a base para uma pedagogia libertária. Afinal devemos sempre recordar que quem construiu Tebas, a cidade de sete portas, não foram os reis da época. Recordar a fim de não esquecer que é no presente que a Memória é construída e disputada. No futuro nos perguntaremos quem enfrentou a pandemia? Foram os governantes do período? Ou, foram aqueles que saem nas madrugadas, antes dos passarinhos cantarem e do Sol raiar, para trabalhar? Aqueles que apesar da ignorância por não saberem a diferença entre vírus e bactérias mesmo assim são obrigados a escolher entre o privilégio de venderem sua força de trabalho ou serem empreendedores de sua própria miséria? Se não foram os reis que construiram Tebas; nem os governantes que enfrentam a pandemia, como nós nos deixamos ser atropelados pelos processos Históricos? 

Galeano, contou-me uma vez, através de um de seus livros, que existia um tribo na Terra do Fogo, onde as mulheres se sentavam na proa das canoas, eram guerreiras, caçadoras, pescadoras e provinham o sustento e a proteção da tribo. Os homens faziam seu papel cuidando da prole, das hortas e dos afazares “domésticos”, acreditavam serem tarefas subalternas. Então, um dia os homens mataram todas as mulheres guerreiras e passaram a ensinar as suas filhas que eles eram os verdadeiros guerreiros, assustavam-nas com máscaras de carrancas, antes usadas pelas mulheres para assustarem os próprios homens. Os homens ensinavam as filhas da guerreiras que elas deveriam servir aos homens, assim ensinaram as filhas das suas filhas. Gerações seguintes e ainda ensinam com máscaram nos rostos. 

No dia 31 de Maio de 1964, uma parcela da sociedade civil e militar resolveu assassinar a, já frágil, democracia brasileira. Passaram a ensinar nas escolas, quartéis, imprensa e jornais, que era para o próprio bem da sociedade, afinal um espectro rondava nossas nossas fronteiras. Os assassinos ganharam nomes de ruas e rodovias; praças e viadutos; canais de televisão e jornais. Alguns ainda circulam por aí, exibindo suas medalhas, méritos e máscaras. 

No dia 31 de Maio de 2021, quase 60 anos depois desse assassinato muitos ainda têm medo das máscaras e das histórias usadas a tanto tempo atrás. Ainda acreditam existir inimigos invisíveis, fantamas vermelhos. Um medo que só alimenta e reforça as narrativas dos mascarados. Por isso a Memória é a base de uma pedagogia libertária. Devemos recordar que algumas narrativas são máscaras que usam para nos amedrontar.

- Romlav
“Remember, remember.”

“chocolates, pequena, come chocolates”

Sentados no sofá, estávamos a dividir uma barra de chocolate. Ela pega o meu celular e vê a foto da proteção de tela. Olhando a foto rapidamente me pergunta:

- Por que a garota da foto está chorando?!

Peço para ela olhar mais atentamente. Na segunda vez, ela percebeu que na verdade a garota estava sorrindo. Então, ela insiste na pergunta, mas modifica o teor:

- Por que ela sorria?
- Porque eu sentei no colo dela bem na hora da foto.
- Por que sua barba está maior na foto do que agora? - Ela perguntou olhando novamente para foto.
- Tive que tirar por causa da pandemia. 
- Vai voltar a crescer?
- Ahan! - Respondo, acenando com a cabeça.
- Você nasceu com ela? 

Decidindo confundir a cabeça de uma menina de cinco anos e querendo encerrar o interrogatório cheio de "porques", acabo respondendo que sim. Ela com uma cara de dúvida pergunta:

- A minha vai crescer? 

Passo a mão no seu rostinho, seguro o queixo giro a cabeça dela pra lá e pra cá, fingindo analisar com um ar de seriedade e num tom de preocupação respondo: 

- Tudo indica que sim. 
- Por que? - Retruca ela.

Sinto que esta é a oportunidade perfeita para colocar um plano maligno em ação.

- Vai crescer porque você come muito chocolate. 

Um minuto de silêncio se instaura entre nós. Pergunto se ela vai terminar de comer os chocolates. Ela com um olhar preocupado, olha pra minha barba, olha para a barra de chocolates e me dá a sua parte.

Quanto tempo durará minha estratégia?

“chocolates, pequena, come chocolates”

Sobre árvores e memórias.

No singelo quintal da minha mãe existiu um abacateiro, daqueles grandes, entre 6 e 8  metros de altura. Na primavera forrava o chão de flores, depois os galhos envergavam com tanta fruta. Nunca foi podado ou aguado, mesmo assim dava muitos frutos. Na época da colheita não dávamos conta de tanto abacate, os vizinhos vinham apanhar as frutas; desconhecidos batiam no portão e pediam para entrar e colher abacates. Nesse período o resultado era caixotes cheios e espalhados pela área de casa.

O abacateiro era enorme, tal como sua sombra e abundância. Portava duas redes tranquilamente. Cresci não dando muita importância para ele, mas adorava comer a polpa do seu fruto com açúcar. Aprendi aos poucos a admirar sua imponência. Quando eu subia nele, podia ver a rua detrás da nossa casa, era praticamente  um mirante, um forte.

Conforme o tempo passou ele foi secando. Parou de dar frutos. Não sei se ele desistiu da vida, se se cansou de ser abacateiro. Alguém sabe como as árvores deixam de existir? Não falo somente de fatores biológicos, pois seres vivos tendem a morrer. Pergunto no sentido metafísico da coisa, quando elas deixam de ser o que são? Pois bem, de noite a sombra dos seus galhos retorcidos tirava o sono do meu irmão. Chegou um dia, ele era só um tronco seco. De tronco seco passou a toco, de toco passou a um buraco no chão, seu túmulo está lá, até hoje. 

Minha mãe não sabe dizer se ele já vivia ali quando começamos a construir a casa. Mas de certo sua história se mistura com minhas memórias sobre o quintal da casa em que cresci. Falamos dele como um ente querido que se foi. Uma entidade, os vizinhos sempre comentam, "nunca mais comi abacates como aqueles".

Hoje no quintal da minha mãe não tem abacateiro, mas tem uma jabuticabeira, pé de acerola, pé de goiaba e um pé de ipê branco. Esse último, todas às vezes que floresce, floresce com ele lembranças. Certamente ele crescerá como o abacateiro, já tem uns quatro metros, esse ano ele completará cinco anos, cresceu mais de um metro por ano. Cresceu com ele as memórias, a saudade. Conforme ele vai indo em direção ao céu; conforme ele forra o chão de flores brancas, a gente vai se dando conta de como o tempo passa. Em outubro ele sempre floresce.

Enquanto isso, o menor pé do quintal está carregado. Uma jabuticabeira de uns três metros. Apesar de pequeno porte, ela já tem quase uma década. Dizem que quando chega o frio é época de comer jabuticaba. No quintal de minha mãe tem jabuticaba o ano inteiro. Essa frutinha preta por fora e branca por dentro; doce que dá no tronco, nunca foi minha favorita. Mas senti que o pé andava meio mal cuidado.

Resolvi fazer uma poda drástica. Tirei muitos galhos, deixando apenas as ramificações do tronco principal. Comprei adubo e serragem para o canteiro, e aguei todos os dias.

O resultado seguiu a seguinte ordem: brotos por todo o tronco, que se tornaram flores brancas, que atraíram todo o tipo de abelhas e insetos, que atraíram pássaros. Aquele tapete de flores brancas no tronco, se tornaram uma gama de frutos doces, barrigudinhas agarradas por todo o tronco, os frutos atraíram mais pássaros e uma bela receita de geleia. Aprendi a gostar de jabuticaba. Percebi que esse pezinho tem uma vontade enorme de florescer e dar frutos.

O quintal da minha mãe ainda guarda muitas árvores e lembranças. Terreno fértil para frutas, flores e memórias que nunca secam.
Brotos.
Flores.
Algumas jabuticabas maduras.
Preparando a geleia.
Processo.
Geleia finalizada.
Sobre árvores e memórias.

Ain’t no sunshine

Cabelos pertencentes ao astro rei
Seu poder vem do sol
Boca rígida como as leis
Sua língua é um anzol
Me prende como isca
Ombros armações de aço
Por todos os lados faíscas
Exala um mormaço
Aquele ventre lapidado
Pés fincados no chão
Sabem a minha direção
Pelugem do corpo dourada
Banho de lua, não prateada
Sobre os olhos, Bowie diria: 
“See these eyes so green”
Por isso quando ela escapa de mim
Ain't no sunshine in my mind
Ela é toda assim, natureza pura
Uma força bruta, me impele e puxa
Quando ela se vai, escuridão toma conta
No meu crepúsculo a coruja de Minerva alça voo
Fico sentado à porta, ela se demora
Por isso quando ela se vai
Ain't no sunshine in my mind
Ao retornar escuto o canto do galo Gaulês
Emparelhados, deito-me cansado 
Acordo no outro dia revigorado
Cabelos emaranhados na barba
Fios dourados por todos os lados
Por isso quando ela se vai
Ain't no sunshine in my mind
Banho-me nas verdes águas dos seus olhos
Transbordamos por todos os poros
É pedir demais uma noite de sono?
Meu corpo sonâmbulo anda vagando
Um casco vazio pra cima e pra baixo
Por isso quando ela se vai
Ain't no sunshine in my mind
Pra onde ela anda? Não me importa
Só me interessa quando retorna
Esse corpo deixa de ser uma vazia abóbada 
Diante da origem do mundo me prostro
Observo, Coubert sentiria inveja
Por isso quando ela se vai
Ain't no sunshine in my mind
Somos dois por engano na natureza
Quando ela retorna, mesmo com a luz
A noite corrige tal desacerto
Quando o dia se alvora
Estabilizo minha modorra
Espreguiçamos em quatro braços
Cabeça, joelhos, corpos e mãos
Ninguém sabe de quem são
Na penumbra do quarto
Somos animal de duas cabeça
Por isso quando ela se vai
Ain't no sunshine in my mind
Ain’t no sunshine